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Ciência & Longevidade

Pós-Ozempic: 6 medicamentos em fase final que vão redefinir o emagrecimento

Caixa de Ozempic (semaglutida) da Novo Nordisk com caneta de injeção pré-preenchida — o medicamento que abriu caminho para a nova geração de emagrecedores
Foto: David Trinks / Unsplash
26 de maio de 2026 14 min de leitura

O Ozempic mudou o emagrecimento — mas é só o capítulo um. Na fila de aprovação dos órgãos regulatórios, há pelo menos seis candidatos em fase final de testes que prometem ir além: perdas de peso próximas das obtidas por cirurgia bariátrica, formato em comprimido, aplicações mensais e até medicamentos que preservam massa muscular. Aqui está o mapa do que vem por aí, com base nas evidências clínicas disponíveis.

O que aconteceu com o Ozempic — e por que existe um "depois"

Por décadas, o tratamento farmacológico da obesidade foi marginal. Medicamentos como sibutramina e orlistat tinham eficácia modesta e efeitos colaterais relevantes. A obesidade era tratada essencialmente como "questão de força de vontade", apesar da ciência já reconhecer há muito tempo que se trata de uma doença crônica complexa.

Tudo mudou quando o semaglutida (princípio ativo do Ozempic, originalmente para diabetes tipo 2, e do Wegovy, especificamente para perda de peso) demonstrou perdas médias entre 14% e 17% do peso corporal em ensaios clínicos. Em seguida, o tirzepatida (Mounjaro e Zepbound, da Eli Lilly), agindo simultaneamente em dois alvos hormonais (GLP-1 e GIP), elevou esse patamar para uma média próxima de 20%.

O impacto foi sísmico. A demanda explodiu globalmente. O valor de mercado da Novo Nordisk superou em determinado momento o PIB da Dinamarca. A Eli Lilly se tornou a farmacêutica mais valiosa do mundo. E a próxima pergunta tornou-se inevitável: se chegamos a 20% de perda média com tirzepatida, até onde dá pra ir?

A resposta está sendo escrita agora, em centenas de ensaios clínicos espalhados pelo mundo. Abaixo, os seis candidatos mais relevantes em fase final de desenvolvimento — e o que cada um pode mudar.

A nova corrida farmacêutica: 6 candidatos em destaque

1. Retatrutide (Eli Lilly) — o que se aproxima da cirurgia bariátrica

Se existe uma "estrela" dessa nova geração, é o retatrutide. Trata-se de um triplo agonista — atua simultaneamente em três receptores hormonais: GLP-1, GIP e glucagon. Para comparação: semaglutida é agonista de um único receptor (GLP-1); tirzepatida age em dois (GLP-1 e GIP).

Os resultados publicados na New England Journal of Medicine em 2023 (Jastreboff e colaboradores) mostraram perda média de aproximadamente 24% do peso corporal em 48 semanas, no maior braço de dose testado. Para contexto: a cirurgia bariátrica (bypass gástrico) geralmente leva a perdas entre 25% e 35% no primeiro ano.

É a primeira vez que um medicamento se aproxima dos resultados de uma intervenção cirúrgica. O retatrutide está em fase 3 (programa TRIUMPH), com leituras esperadas ao longo de 2025 e 2026. Se confirmar o desempenho da fase 2, será o emagrecedor mais potente já aprovado.

Por que importa: o triplo agonismo recruta um terceiro mecanismo (glucagon) que tem efeito direto sobre o gasto energético — algo que faltava nas drogas anteriores, focadas apenas em redução de apetite.

2. CagriSema (Novo Nordisk) — a resposta direta

Enquanto a Eli Lilly aposta no retatrutide, a Novo Nordisk respondeu com o CagriSema — uma combinação fixa de duas moléculas: o já conhecido semaglutida (GLP-1) e a cagrilintide, um análogo da amilina, hormônio liberado pelo pâncreas que reduz fome e desacelera o esvaziamento gástrico.

O programa REDEFINE, em fase 3, vem reportando resultados desde 2024. Pelos dados disponíveis até o início de 2025, o CagriSema entregou perdas entre 20% e 23% — superior ao Wegovy isolado, mas em níveis comparáveis aos do tirzepatida, e abaixo da expectativa inicial do mercado (alguns analistas esperavam números mais próximos do retatrutide).

Por que importa: é a aposta da Novo Nordisk para manter liderança no segmento. Adiciona um mecanismo (amilina) ainda pouco explorado comercialmente — abrindo caminho para outras combinações futuras.

3. Orforglipron (Eli Lilly) — a primeira pílula oral em larga escala

Todas as opções acima são injetáveis. A picada semanal não chega a ser uma barreira intransponível — mas é, sim, um inconveniente, e em muitos contextos (idosos com tremor, fobia de agulha, ambientes sem refrigeração adequada) torna-se obstáculo real.

O orforglipron resolve isso. É um agonista GLP-1 oral, não-peptídico (uma molécula pequena, sintética, que não é degradada no estômago como o semaglutida em pílula precisa lidar com restrições). Pode ser tomado sem necessidade de jejum estrito e tem perfil farmacocinético favorável.

Resultados de fase 2 publicados na NEJM em 2023 (Wharton e colaboradores) mostraram perdas médias entre 14% e 15% em adultos com obesidade após 36 semanas no maior dose. Está em fase 3 (programa ATTAIN) com leituras esperadas ao longo de 2025-2026.

Por que importa: formato oral muda escalabilidade do tratamento. Pílula é mais barata de produzir, mais fácil de distribuir (sem necessidade de cadeia fria), e tem aceitação significativamente maior do público. Se aprovado, pode ser o primeiro GLP-1 a competir em preço com tratamentos genéricos.

4. MariTide / AMG 133 (Amgen) — uma dose por mês

O MariTide, código AMG 133 da Amgen, é uma molécula com mecanismo curioso: combina ativação do receptor GLP-1 com antagonismo do receptor GIP (note que faz o oposto do tirzepatida, que ativa ambos). A justificativa científica é complexa — em síntese, há evidências de que o antagonismo crônico de GIP pode produzir efeito metabólico similar ou superior ao agonismo, paradoxalmente.

Mas o principal diferencial não é o mecanismo: é a frequência de dose. Enquanto semaglutida e tirzepatida são semanais, o MariTide foi desenhado para dosagem mensal, com perfil de meia-vida muito longo. Resultados de fase 2 reportados em 2024 indicaram perdas significativas (números específicos pendentes de publicação revisada por pares — verificar antes de citar percentuais exatos).

Por que importa: uma dose por mês significa adesão potencialmente muito maior. Quem deixa de tomar Wegovy não é só por preço — é porque esquece, viaja, perde acesso temporário. Reduzir a frequência de 4 doses/mês para 1 dose/mês altera radicalmente o uso real do medicamento.

5. Survodutide (Boehringer Ingelheim / Zealand Pharma) — foco no fígado

O survodutide é um agonista dual GLP-1/glucagon, em desenvolvimento conjunto pela Boehringer Ingelheim (Alemanha) e Zealand Pharma (Dinamarca). Está em fase 3 para obesidade, mas seu diferencial está em uma outra indicação simultânea: MASH, a esteato-hepatite metabólica (antiga "fígado gorduroso não-alcoólico"), condição que afeta cerca de 5% da população adulta global.

Em fase 2 para MASH, o survodutide produziu reduções significativas de gordura hepática e melhora de fibrose. Isso o torna potencialmente o primeiro emagrecedor da nova geração com indicação aprovada simultaneamente para uma condição hepática — abrindo o mercado para uso clínico mais amplo.

Por que importa: obesidade raramente vem sozinha. Geralmente vem acompanhada de fígado gorduroso, pressão alta, resistência insulínica, apneia. Um medicamento que trate múltiplas condições com mecanismo único é farmacologicamente mais elegante e clinicamente mais útil.

6. Bimagrumab (Eli Lilly / Versanis Bio) — preservar músculo durante perda de peso

Aqui o foco muda. O bimagrumab não é um GLP-1. É um anticorpo monoclonal que bloqueia o receptor de activina tipo II — um sinalizador que, em condições normais, freia o crescimento muscular. Ao bloqueá-lo, há ganho de massa muscular e, indiretamente, perda de massa gorda.

A Eli Lilly adquiriu a Versanis Bio (desenvolvedora do bimagrumab) em 2023, com foco específico em uma combinação experimental: bimagrumab + semaglutida. A hipótese é que o GLP-1 faria o paciente perder peso (gordura + músculo, como já é conhecido), e o bimagrumab compensaria a perda muscular, resultando em perda mais "limpa" — predominantemente de gordura.

Este é um dos grandes problemas práticos da geração atual de emagrecedores: 25% a 40% da perda de peso com semaglutida ou tirzepatida é de massa magra, segundo análises da composição corporal em ensaios clínicos. Para pessoas mais velhas, esse percentual de perda de músculo pode comprometer mobilidade e independência funcional.

Por que importa: é a primeira tentativa farmacológica séria de resolver o problema da perda muscular concomitante. Se funcionar, pode se tornar terapia adjuvante padrão para qualquer protocolo de emagrecimento medicamentoso.

Por que essa nova onda muda o jogo (4 fronteiras)

Fronteira 1: Eficácia próxima da cirurgia bariátrica

Pela primeira vez na história, medicamentos se aproximam de resultados antes restritos a intervenção cirúrgica. Isso não significa que cirurgia se torne obsoleta — para pacientes com obesidade grave (IMC acima de 40) ou comorbidades sérias, a bariátrica continua sendo padrão-ouro. Mas o universo de quem se beneficia de tratamento medicamentoso eficaz se expande dramaticamente.

Fronteira 2: Formato e logística

Pílulas, doses mensais e formulações termoestáveis (que dispensam refrigeração) ampliam radicalmente a viabilidade prática. Países com infraestrutura limitada, populações em situação de vulnerabilidade, idosos isolados — todos passam a ser potencialmente atingíveis pelo tratamento.

Fronteira 3: Qualidade da perda de peso

A preocupação com sarcopenia (perda muscular) está dando origem a uma nova classe de drogas. O futuro provavelmente não é "qual medicamento faz perder mais peso", mas "qual combinação produz perda predominantemente de gordura, preservando função muscular".

Fronteira 4: Tratamento de comorbidades em conjunto

Survodutide para fígado, semaglutida com aprovação adicional para risco cardiovascular reduzido em pacientes com obesidade, tirzepatida em estudo para apneia obstrutiva do sono — o paradigma está mudando de "tratar a obesidade" para "tratar o complexo metabólico".

O que NÃO está resolvido: 5 problemas pendentes

É fácil deixar-se levar pelo entusiasmo. Aqui estão os limites conhecidos que toda essa geração de medicamentos ainda enfrenta:

  1. Custo. Wegovy e Mounjaro custam entre R$ 1.500 e R$ 2.500 por mês no Brasil em 2025. As próximas gerações tendem a ser ainda mais caras inicialmente, antes da entrada de genéricos. Acesso continua sendo o problema número 1.
  2. Recuperação do peso após parar. Estudos como o STEP-4 mostraram que cerca de dois terços do peso perdido com semaglutida retornam em um ano após a interrupção do medicamento. Os novos medicamentos não dão indicação clara de que isso será diferente.
  3. Efeitos colaterais gastrointestinais. Náusea, vômito, constipação, refluxo. Acometem entre 30% e 60% dos usuários de GLP-1 em algum momento. A nova geração tende a ter perfil parecido — os mecanismos centrais são os mesmos.
  4. Perda muscular (parcialmente endereçada). Bimagrumab é uma tentativa, mas ainda em fase clínica. Para quem inicia o tratamento hoje, a recomendação prática é manter (idealmente intensificar) treino de força e consumo proteico durante o uso.
  5. Dados de longo prazo. A maior parte dos estudos tem seguimento de 1 a 2 anos. O que acontece com uso por 10, 20, 30 anos é ainda incógnita — particularmente em populações pediátricas e jovens adultas, que provavelmente serão alvos comerciais futuros.

Linha do tempo realista: quando esperar no Brasil

Toda projeção depende da conclusão dos ensaios de fase 3, da revisão regulatória (FDA, EMA, ANVISA) e de negociações comerciais. Cenário plausível com base no que era conhecido até o início de 2025 (sujeito a revisão):

Nota: prazos baseados em comunicados públicos disponíveis até o início de 2025. Esses cronogramas frequentemente sofrem ajustes. Verifique os comunicados oficiais das farmacêuticas e da ANVISA para informação atualizada antes de tomar decisões clínicas.

O que isso significa pra quem quer emagrecer hoje

Quatro reflexões práticas:

1. Não espere o "medicamento perfeito". Esperar dois anos pelo retatrutide enquanto se mantém o peso atual significa dois anos a mais de obesidade — e os danos metabólicos da obesidade são cumulativos. Quem precisa intervir, intervém com o que está disponível agora.

2. O remédio é uma alavanca, não a base. Mesmo o retatrutide mais potente, em estudos, foi acompanhado de intervenção nutricional e orientação de atividade física. A medicação amplifica o trabalho. Não substitui.

3. Acompanhamento profissional é mandatório. Esses medicamentos não são vitaminas. Têm interações, efeitos colaterais, contra-indicações. Uso responsável envolve médico endocrinologista (ou clínico habilitado) e nutricionista. A automedicação ou compra em farmácias informais é não só perigosa — é potencialmente fatal em algumas situações.

4. Estilo de vida segue sendo a base sustentável. Para a maioria das pessoas com sobrepeso leve a moderado, alimentação ajustada, atividade física regular e sono adequado continuam sendo a primeira linha — antes de partir para farmacologia.

Para ler o cardápio editorial que recomendamos como ponto de partida prático, veja o "Cardápio de 7 dias para emagrecer com saúde". Para entender a parte psicológica da motivação (que continua sendo crítica mesmo com medicamento), leia "Como manter motivação para emagrecer com método SMART".

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FAQ

Esses medicamentos são todos GLP-1?

Não. A maioria envolve GLP-1, mas em mecanismos diferentes: agonista único (semaglutida, orforglipron), dual (tirzepatida, MariTide, survodutide), triplo (retatrutide), ou combinação com outras classes hormonais (CagriSema com amilina). O bimagrumab, ao contrário, atua em receptor de activina, sem envolver GLP-1.

Por que GLP-1 emagrece?

O GLP-1 (peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1) é um hormônio natural liberado pelo intestino após refeições. Ele atua em receptores no cérebro (reduzindo apetite e gerando saciedade), no estômago (retardando esvaziamento) e no pâncreas (regulando insulina). Os medicamentos são análogos sintéticos desse hormônio, mais potentes e de ação prolongada.

O retatrutide vai realmente ser melhor que tirzepatida?

Os dados de fase 2 apontam que sim, em termos de magnitude de perda de peso. Mas a fase 3, com população maior e mais diversa, é que dará a resposta definitiva. Também resta saber qual será o perfil de efeitos colaterais a longo prazo. O entusiasmo é fundamentado, mas o veredito final está pendente.

Quanto vai custar?

Custos de lançamento de drogas inovadoras geralmente estão na faixa dos atuais Wegovy/Mounjaro ou acima. Em prazo de 5-10 anos, com chegada de biossimilares e de orforglipron (oral), espera-se redução real de preço — mas é especulativo precisar quando.

Existe alternativa não farmacológica equivalente?

Cirurgia bariátrica permanece como a intervenção mais potente em termos de magnitude de perda de peso sustentada. Mudança consistente de estilo de vida produz perdas mais modestas (5-10%) mas sem custo medicamentoso nem efeitos colaterais farmacológicos. Para muitos casos, a combinação de mudança de estilo de vida com medicamento moderado (semaglutida) é o equilíbrio mais favorável.

Esses medicamentos têm o mesmo efeito em todas as pessoas?

Não. Há variabilidade individual significativa. Em estudos, cerca de 10-20% dos participantes não respondem bem (perda menor que 5% do peso). Genética, microbioma intestinal, idade, sexo biológico e composição corporal inicial influenciam. Personalização farmacológica é uma das fronteiras de pesquisa.

Posso usar esses medicamentos só para perder uns quilos por estética?

A rigor não — Wegovy/Mounjaro têm indicação para obesidade (IMC ≥ 30) ou sobrepeso (IMC ≥ 27) com comorbidades. Uso fora de bula para emagrecimento leve está sob escrutínio regulatório e médico, e tem trade-off de risco-benefício diferente.

Aviso médico: este conteúdo é informativo e baseado em literatura clínica disponível publicamente. Não é prescrição, indicação de tratamento ou recomendação para uso individual. Decisões sobre uso de qualquer medicamento — incluindo os mencionados neste artigo — devem ser tomadas exclusivamente com médico habilitado, após avaliação clínica individualizada. Pessoas com diabetes, hipertensão, problemas cardíacos, doenças renais ou hepáticas, gestantes, lactantes, idosos, crianças, adolescentes e pessoas com histórico de transtornos alimentares devem ter cuidado especial e nunca iniciar tratamento por conta própria. Em caso de uso de qualquer destes medicamentos, acompanhamento médico contínuo (com monitoramento de exames, peso, composição corporal e efeitos colaterais) é mandatório. Em caso de emergência, ligue 192 (SAMU) ou procure pronto-socorro.

Fontes e referências

Esta análise editorial se baseia em comunicações oficiais das farmacêuticas envolvidas, comunicados regulatórios da FDA, EMA e ANVISA, e publicações científicas revisadas por pares. Créditos:

Nota de transparência editorial: dados específicos (percentuais de perda de peso, prazos de aprovação) refletem informações públicas disponíveis até o início de 2025. Programas clínicos em andamento têm progresso contínuo — recomendamos sempre verificar comunicados mais recentes nas fontes citadas antes de tomar decisões clínicas ou comerciais. O MagroFeed não tem vínculo financeiro com nenhuma das farmacêuticas mencionadas neste artigo.

Última revisão: 26 de maio de 2026 · Próxima revisão prevista: trimestral (a cada anúncio relevante de fase 3 ou aprovação regulatória).

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